Terça-feira, 18 de Setembro de 2007
A Vingança da PIDE e O Passaporte a Domocílio
 
 
 
 
Numa manhã invernosa de Sábado o Manuel encontrava-se em casa, sem vontade de expor-se ao mau tempo, observado através da marquise envidraçada, voltada para o quintal onde uma pereira abacate de grande porte aguentava estoicamente as vergastadas da chuva que impulsionadas pelo vento a faziam dobrar quase em ângulo recto.
Ouviu tocar a campainha e foi espreitar pelo óculo da porta, avistando um homem com cerca de trinta anos impecavelmente vestido. Abriu a porta e o homem, numa atitude quase militar, perguntou pelo seu nome. Embora surpreendido, confirmou ser ele.
— Trago uma encomenda a entregar unicamente ao próprio. Mostre-me o Bilhete de Identidade e assine aqui, por favor— disse estendendo o livro do protocolo, e ao mesmo tempo recebendo o documento de identificação cujos elementos anotou.
Recebeu de volta o livro e entregou um envelope juntamente com o Bilhete de Identidade, despedindo-se com um amável bom dia. Olhou para o envelope onde constava o escudo da República e a designação de Governo Civil de Lisboa. Abriu-o apressadamente, e dentro encontrou o seu passaporte. Sem perceber muito bem olhou atentamente para aquele livrinho de capa verde com o escudo nacional e o nome de Portugal gravado em letras douradas e sentiu uma estranha sensação de desforra.
Desde muito pequeno associava o passaporte a uma ideia de conquista e liberdade. Lembrava-se das dificuldades que o pai e os conterrâneos tinham de vencer para obter aquele documento que lhes permitia deslocarem-se livremente entre a sua terra natal e a França.
A concessão era arbitrária e só alguns privilegiados, amigos do padre ou do presidente da junta, e com propriedades em seu nome, o conseguiam obter.
Para a maior parte dos emigrantes foi conseguido depois da passagem a salto e de muitas horas perdidas à porta dos consulados portugueses em França.
Mas o passaporte só por si não garantia a liberdade de circulação.
Os mancebos em idade da inspecção e os homens até aos 45 anos necessitavam de um documento militar.
Para os emigrantes com passaporte, e após os 25 anos, era possível remir as obrigações militares mediante o “pagamento da tropa”, ou seja uma taxa, que lhes permitia regularizar a situação.
Ele próprio tinha vivido essa experiência. Há cinco anos atrás para conseguir o passaporte foi necessário apresentar um documento do governo francês provando dispor de uma bolsa de estudos, para conseguir a autorização militar.
Regressado da Guiné, em finais de Abril, dirigiu-se para Castro Laboreiro onde se manteve cerca de dois meses gozando umas férias tranquilas junto dos pais e nos locais aos quais se sentia fortemente ligado. Mas a vida continuava e em Julho regressou a Lisboa.
Como já estava desmobilizado, e pretendia regressar a Paris para continuar a sua vida profissional, requereu o passaporte no Governo Civil de Lisboa. 
Para grande surpresa foi-lhe recusado.
Não queria acreditar e pretendia saber a razão! Após várias insistências o funcionário foi chamar um superior hierárquico a quem explicou o absurdo da situação. Enquanto estava apurado para o serviço militar tinham-no autorizado a ir para o estrangeiro e agora, depois de ter cumprido o seu dever, inventavam uma desculpa para o obrigarem a fugir!
Ao fim de algum tempo e várias insistências tentativas conseguiu arrancar a informação de que a causa do indeferimento resultara de parecer negativo da PIDE, que era obrigatório!
Revoltado com a injustiça, um dia resolveu ir à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, pedir explicações.
O agente porteiro depois de lhe perguntar o que pretendia mirou-o de alto a baixo, foi a uma casota telefonar e mandou-o subir ao andar superior onde outro agente o encafuou numa pequena sala interior e o mandou esperar.
Ao fim de longos minutos apareceu um inspector perguntando-lhe qual a razão da vinda ali. Explicou que pretendia saber a razão da informação negativa relativamente ao seu pedido de passaporte. O Inspector olhou para ele com ar de sobranceria e perguntou-lhe:
¾É a primeira vez que vem aqui?
¾É sim.
¾Então fique a saber: aqui só vem quem nós chamamos! E foi-se embora.
Meio aparvalhado, desceu as escadas e o porteiro, com ar trocista, deu-lhe as boas tardes.
Sentou-se na esplanada da Brasileira do Chiado, completamente revoltado e perguntando a si mesmo, de que servira ter cumprido a sua palavra!
Com os seus planos de voltar à UNESCO frustrados acabou por se conformar e enfrentar a inevitabilidade de procurar trabalho em Lisboa. Uma tarde, quando passava na Rua da Junqueira, frente à sua antiga Escola, o Neto, amigo e professor auxiliar, veio ao seu encontro e efusivamente disse-lhe:
¾ Até que enfim o encontro! O Professor N. dos Santos, tem muita urgência em falar consigo Há quase duas semanas que tentava entrar em contacto consigo.
¾    Por acaso sabe qual é o assunto? ¾ perguntou.
¾ Apenas me disse que precisava de uma pessoa para seu adjunto num consórcio de empresas multinacionais e quando eu lhe referi que você estava disponível, pediu-me para o contactar, porque o conhecia como aluno, e através de uns trabalhos. Talvez fosse a pessoa indicada e segundo me disse as condições de trabalho são muito boas. É tudo quanto sei.
Agradeceu ao amigo e contactou o Professor, acabando por aceitar o convite para trabalhar com ele, em condições muito acima da média.
Decorridos alguns meses após a entrada para o grupo empresarial o Professor informou-o que devia preparar-se para deslocar-se aos Estados Unidos e a Bruxelas a fim de apoiar uma missão do Estado Português, cujos pormenores e instruções iriam ser fornecidas pelo Director do Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, dentro de breves dias.
Transmitidas a missão e a forma de actuar ficou acordada a primeira fase de intervenção, obrigando a uma deslocação aos Estados Unidos. Nessa altura virou-se para o Director e disse:
A missão parece-me aliciante, mas infelizmente não posso deslocar-me ao estrangeiro.
—  Como assim? — perguntou o embaixador responsável pelo Gabinete, com ar surpreendido.
A PIDE entendeu dar opinião negativa ao meu pedido de passaporte e por isso foi-me recusado!
Mas porquê? Tem algum problema com as autoridades? — perguntou o embaixador num tom preocupado.
— Não! A única explicação possível refere-se a um incidente ocorrido em 1966 com um agente da PIDE na Guiné.
Já agora conte lá isso, para sabermos com o que podemos contar! Exigiu o Embaixador.
E começou a narrar o episódio, acontecido há dois anos em Nova Lamego.
Como oficial de informações todas as manhãs, às 07h00, a sua primeira tarefa  era analisar as actividades operacionais e de informações ocorridas nas últimas 24 horas no Batalhão e na Zona, e elaborar o relatório diário a enviar ao Comando em Bissau, o qual retirava os aspectos considerados mais importantes, e distribuída a todas as unidades, semanalmente, uma síntese dos factos.
Esse relatório diário assentava nas informações recolhidas pelas subunidades do Batalhão no terreno, e no sistema de informações instituído.
Era prática recomendada pelo Comando Chefe de Bissau, a partilha de informação com a subdelegação da PIDE existente em Nova. Lamego, funcionando na Administração do Concelho, e apenas com um agente.
Através dos relatórios semanais do Comando Chefe constatou a existência de muitas referências e informações sobre a região Leste, onde o Batalhão actuava, como sendo originárias da PIDE, quando afinal eram de origem militar e o tal agente obtinha-as mediante o acesso ao centro nevrálgico do Comando do Batalhão, transmitindo-as como sendo resultantes do seu trabalho, influenciando a actividade do Batalhão, pois era com base em informações que o Comando sugeria ou determinava operações no terreno
Perante tal abuso, e obtido o acordo do Comandante, transmitiu ao agente que dada a situação do território, sob comando militar, e o facto de ele pertencer a uma instituição civil, não poderia ter acesso directo à referida sala, sem prejuízo de ser informado dos factos com interesse para a sua actividade. Perante a eminência de ver a sua fonte secar fez várias ameaças, mais ou menos veladas, mas de facto a situação mudou, e a contribuição do referido agente ficou reduzida ao seu trabalho próprio, quase nulo, dada a realidade existente na região.
Já neste contexto, uma manhã deparou com uma mensagem de uma das companhias informando ter capturado dois prisioneiros, identificados como estrangeiros, a serem remetidos nessa tarde para o Comando do Batalhão para interrogatório mais detalhado.
Assim aconteceu. Ao princípio da tarde e com recurso a um militar nativo, fula, como intérprete, porque dominava bem o português e a língua dos prisioneiros, concluiu-se o interrogatório.
Ainda o relatório não estava feito quando o agente da PIDE irrompeu pela sala de operações reclamando a entrega imediata dos prisioneiros por se tratar de estrangeiros, cuja competência era exclusivamente dos seus serviços.
Calmamente, o Manuel tentou explicar-lhe que pelo facto de o território estar sob domínio militar, competia a estes, em primeiro lugar, averiguar do interesse dos capturados e só depois decidir o seu destino
No caso concreto já concluíra pela entrega à entidade civil porque não apresentavam grande interesse militar. No entanto e apesar de escassos 50 metros separarem as instalações do quartel e da Administração Civil, os prisioneiros seriam entregues segundo as normas militares, ou seja com uma guia de entrega.
O Homem mandou-se ao ar dizendo nunca tal ter acontecido, passando a constituir um precedente grave de desconfiança num elemento da PIDE, ainda para mais da parte de um oficial miliciano. Nunca receberia os prisioneiros em tais condições e, assim, iria ter de se justificar perante o Comando de Bissau, que ele alertaria de imediato através do seu subdirector.
Mal o agente abandonou as instalações encarregou o sargento das informações de preencher as guias de entrega e levar os prisioneiros para o edifício da Administração, com ordens expressas de só os entregar se o agente assinasse as respectivas guias. Caso contrário trazia-os de volta.
Passados 15 minutos o referido furriel voltou com a indicação de o agente se manter intransigente e só aceitar os dois homens sem Guia.
Perante esta situação falou com o Comandante a quem explicou a sua relutância em prescindir do formalismo, porque em tempos o referido agente se gabara de ter feito desaparecer prisioneiros sem deixar rasto.
Embora criando uma situação insólita, sugeriu o envio dos prisioneiros por via aérea para Bissau à ordem do Comando Chefe, com a indicação do sucedido, ou seja a recusa do agente da PIDE em assinar a respectiva guia.
Passadas duas semanas o agente desapareceu, deixando o recado de que alguém iria pagar caro pela sua saída.
—  É só isso? perguntou o director do Gabinete em tom duvidoso.
—  É sim — garantiu.
O embaixador pegou no telefone e pediu para ficar sozinho. Passados alguns minutos veio ter com eles e disse.
Afinal também foi pedir explicações à sede da PIDE! De qualquer maneira o assunto vai ser resolvido. Dentro de alguns dias vai receber o seu passaporte.
Era a missão que o mensageiro tinha vindo cumprir!
Perante o desejado livrinho verde esboçou um sorriso, pensando na ironia da situação.
A PIDE tinha vingado o seu agente ao não permitir a concessão do passaporte: Mas a desforra tinha chegado. E veio-lhe à ideia a máxima popular de que Deus escrevia direito por linhas tortas!
 
 


publicado por crastejo às 00:00
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Sábado, 6 de Maio de 2006
Castro Laboreiro - Deserticação de uma zona raiana
Castro Laboreiroaté meados do século passado, era uma Comunidade raiana do Alto Minho com cerca de 2.000 habitantes.
Explorando um solo pobre e utilizando métodos ancestrais, foi sobrevivendo mediante o desenvolvimento de um sistema agro pastoril, aproveitando as pastagens dos extensos baldios. Simultaneamente foi criando esquemas comunitários de ajuda e solidariedade entre vizinhos que permitiam encarar e resolver as situações mais difíceis de uma qualquer desgraça que se abatia sobre um dos membros da comunidade. Isolada durante séculos, criou normas e princípios que lhe permitiam resolver os problemas internos, evitando o recurso a meios estranhos. A sua cultura manteve-se inalter á vel às influências exteriores. O sistema de valores assentava no respeito pelos mais velhos e no repúdio pelos que não respeitavam a palavra dada ou os valores alheios.
Numa sociedade onde o dinheiro era escasso a ajuda pagava-se com ajuda e a compra de serviços entre vizinhos era esconjurada. Para garantir a sua sobrevivência o homem castrejo emigrava sazonalmente para outras zonas do País ou para a vizinha Espanha, no Outono e Inverno, altura em que os afazeres agrícolas eram reduzidos e voltava na Primavera para iniciar as sementeiras. Alguns, no entanto, partiam para terras mais longínquas como as Américas, sobretudo para o Brasil, onde permaneciam v á rios anos até conseguirem amealhar o que consideravam suficiente para acautelarem as necessidades b á sicas. Este quadro alterou-se profundamente a partir da 2ª metade do século XX, com a emigração maciça para França.
 O dinheiro amealhado provocou uma mudança radical no modo de vida desde a habitação ao investimento na educação dos filhos que para continuarem os estudos tiveram de abandonar a terra natal, na procura de estabelecimento de ensino que não existiam no concelho. Assim a terra foi-se despovoando e em menos de quatro décadas a população diminuiu cerca de 2/3, ficando reduzida a cerca de setecentos habitantes, dos quais 37% tinham em 2001 mais de 65 anos de idade.
Perante este fenómeno, comum ao interior rural do País, decidimos fazer uma incursão pelos registos históricos fornecidos pelos recenseamentos oficias, desde que foram implementados em 1864. A An á lise baseia-se em elementos fornecidos pelos censos a partir de 1864, altura em que se iniciaram os recenseamentos decenais levados a cabo pelo Estado.
Durante o período de 1864 até 2001 registaram-se v á rios episódios com influência na demografia do País e reflexos na população crasteja .
O primeiro foi a queda da Monarquia em 1910, seguida de uma instabilidade social que aumentou a crise económica e social do País e dificultou as migrações internas dos crastejos , agravando as suas dificuldades económicas. A 1ª Grande Guerra, de 1914-18, além de dizimar milhares de jovens militares portugueses veio impossibilitar a emigração nacional destinada à Europa.
Entretanto a partir de Abril de 1918 espalha-se pela Europa a designada Pneumónica ou Gripe Espanhola, que em pouco mais de um ano dizimou, a nível mundial, entre 20 a 40 milhões de pessoas. Todos os exércitos estacionados na Europa foram severamente afectados pela doença, calculando-se que cerca de 80% das mortes da força naval americana se deveram à gripe. A pandemia chegou a Portugal, no mês de Maio e verificou-se uma elevadíssima taxa de letalidade , com duas ondas epidémicas e uma incidência muito marcada no grupo dos 20 aos 40 anos, afectando igualmente a população castreja.
A guerra civil espanhola, de 1936 a 1939 e a segunda Guerra Mundial, se por um lado tornaram inacessíveis os principais destinos migratórios dos castrejos, por outro provocaram a destruição dos países europeus que após o término dos conflitos iriam necessitar de grandes quantidades de mão de obra para a sua reconstrução.
Assim a partir do final da década de quarenta do século passado os portugueses v á lidos, sobretudo do interior rural, iniciaram um processo de emigração maciça, em direcção à Europa, que iria despovoar o mesmo interior dos seus elementos activos, e provocaria igualmente uma acentuada baixa da natalidade e posterior envelhecimento da população.
A nível nacional as elevadas remessas dos emigrantes iriam permitir equilibrar a depauperada balança de pagamentos durante cerca de 4 décadas.
No concelho de Melgaço, e em Castro Laboreiro, a emigração orientou-se sobretudo para França, logo no final da década de quarenta do século XX e intensificou-se nas décadas seguintes de tal modo que no início dos anos sessenta j á existiam v á rias carreiras de camionagem que semanalmente ligavam a sede do Concelho directamente a Paris.
Em Castro Laboreiro, além da melhoria da habitação e das condições de vida do agregado familiar, o dinheiro da emigração provocou uma autêntica revolução cultural, massificando o acesso dos filhos à instrução do ensino secund á rio e superior, e que ao terem de deslocar-se para outras localidades para frequentarem estabelecimentos de ensino inexistentes no Concelho, engrossaram o caudal de saídas. Deste modo a população crasteja que tinha sobrevivido a todas as calamidades, mantendo-se praticamente est á vel durante quase um século, viria a diminuir 63% em menos de 40 anos!
O fenómeno de diminuição de efectivos devido à emigração foi uma constante de âmbito nacional durante quase todo o século XX. O quadro da população portuguesa revelava uma outra característica conferida pela elevada taxa de analfabetismo, que os recenseamentos a partir de 1878 confirmavam.
É neste contexto de um país com elevadíssimas taxas de analfabetismo, com a maior parte da população rural vivendo em condições de grande carência originando uma constante corrente migratória de cariz económico, na procura de melhores condições de vida, que se deve enquadrar a an á lise da população castreja, juntamente com as particularidades de uma região isolada, explorando um solo pobre, com técnicas ancestrais.
Acresce ainda o facto de ter perdido o estatuto de sede de concelho, decretada pela reorganização político administrativa do Reino em 1855.
Para facilitar o referido enquadramento utilizamos elementos comparativos referentes à população do Concelho de Melgaço e de três freguesias.
Escolhemos a de Melgaço, denominada Vila a partir de 1936, por se identificar com a sede do  Concelho e a de Paderne, por ser a freguesia da Ribeira que até 1930 ocupava o 2º lugar quanto ao número de habitantes, a seguir a Castro Laboreiro, e que a partir daquele ano passou a ser a mais populosa. Incluímos ainda Lamas de Mouro por ser uma freguesia serrana, contígua a Castro Laboreiro.
 
 a) - Evolução dos efectivos
 
1 - Estabilidade (1864 – 1960)
 
A nível geral a população de Castro Laboreiro, segundo os Censos eclesi á sticos, ter á evoluído de 1.412 pessoas, em 1758, para 1.840 em 1845.
No primeiro recenseamento geral da população realizado no País em 1864, pelo Estado, foram registados 2.092 habitantes. No recenseamento de 1878 a população era de 1.998 pessoas e em 1890 atingia os 2.145 habitantes enquanto em 1900 era de 2.175. Relativamente a este período os Censos referem a população legal, ou seja com residência declarada na Freguesia, e a população de facto, presente na altura do recenseamento, que hoje se designam por população residente e população presente, respectivamente.
Nos Censos de 1864 a 1900 pode-se observar a referência a um número elevado de homens ausentes na altura dos Censos que rondava os 100 e que em 1890 atingia os 524. Estas ausências poderão estar ligadas à emigração sazonal que ia do final do Outono ao princípio da Primavera.
Relativamente à distribuição por sexos encontramos uma primeira referência em 1825 em que a percentagem de homens é ligeiramente superior à das mulheres,.situação confirmada no Censo de 1864. A partir daí a tendência inverte-se e o número de mulheres ultrapassa definitivamente o dos homens. Ainda neste período final do século XIX, podemos observar referências à elevada taxa de analfabetismo da população crasteja que em 1878 era de 81% nos homens e 90 % nas mulheres.
Quanto ao número de fogos a primeira referência dos Censos eclesi á sticos é de 1527 indicando uma centena. Em 1706 são referidos 567 fogos, número mais elevado constante dos registos eclesi á sticos, dado que a partir daí decresce até aos 318 em 1801, para voltar a aumentar chegando aos 535 no registo de 1845.
O Censo de 1864 registava 542 fogos e 14 anos depois, em 1878, são referidos 610 fogos, enquanto em 1900 não iam além de 462. Convém referir que estas variações não têm correspondência com as registadas ao nível da população, parecendo resultar da mudança de critérios na contagem face à própria definição de fogo utilizada na altura, e à dificuldade introduzida pela existência das brandas e inverneiras .
O número de habitantes registado no início do século XX, recenseamento de 1900, mostra-se concordante com o anterior e com a tendência para uma certa estabilidade da população crasteja à volta dos dois milhares de pessoas, que se iria manter até 1960. No entanto os números apresentados pelo Censo de 1911 registavam como residentes 2.687 pessoas., correspondendo a um aumento da população de cerca de 21%, em relação aos 2.145 elementos registados no Censo de 1900. A única explicação apontada para este aumento da população, cujo acréscimo nas restantes freguesias do Concelho, no mesmo período, foi de escassos 2%, é a perturbação política e económica que grassava no País, devido à queda do regime mon á rquico, que naturalmente atingia os destinos nacionais da emigração sazonal crasteja . O próprio recenseamento, previsto para 1910, não escapou à instabilidade reinante e teve de ser adiado um ano. Na altura da sua efectivação estavam presentes 34 elementos não residentes e ausentes 87 castrejos, eventualmente envolvidos na emigração tradicional.
No Censo de 1920 consta o registo de 1.919 residentes. Conforme j á referimos esta queda brusca teve a ver com a devastação da pneumónica, que vitimou fundamentalmente as mulheres, como de resto em todo o País, acabando por colocar a população em valores próximos da média do período de 1864 a 1960. De facto em 1940 havia 1.975 residentes, em 1950 eram 1.944 e em 1960 o número de habitantes era de 1.941. A partir desta data a frieza dos números passa a reflectir o fenómeno da emigração maciça para França e a saída posterior dos mais jovens por motivo de estudos
No período de 1900 a 1960 os Censos continuam a demonstrar a predominância da população feminina com um valor m á ximo de 137 mulheres por cada 100 homens em 1911 e uma relação média, durante o período, de 120 mulheres por cada 100 homens.
Por outro lado a partir de 1930 notam-se melhorias sensíveis dos números referentes ao analfabetismo, que em 1950 registava taxas de 28% para os homens e 57% para as mulheres.
No que se refere ao número de fogos verificam-se grandes variações decenais. Assim de 462 em 1900 atinge os 751 em 1911, descendo para 444 em 1920 e para 440 em 1930. Em 1940 é realizado o primeiro recenseamento geral da habitação, em simultâneo com o da população e o número obtido foi de 821. Ali á s este número encontra algum paralelismo com o registado em 1911, altura em que pela primeira vez aparecem descriminados os lugares. O valor mais elevado é registado no Censo de 1960 com 1.148 alojamentos, conceito que tinha sido introduzido para substituir o de fogo. As variações dos valores, incluindo as brandas e inverneiras , em nosso entender só encontram justificação nos motivos j á referidos, ou seja a dificuldade em compreenderem o fenómeno brandas inverneiras , e as diferenças de metodologia dos v á rios Censos, acabando por misturar o conceito de residente e presente.
 
2 - Declínio (1970-2001)
 
 A partir de 1970 os Censos reflectem a diminuição dr á stica da população, pelos motivos já apontados. Assim em 1970 o número de habitantes descia para 1.560 e em 1981 para 1.092, representando uma diminuição de 44% da população. Este decréscimo iria continuar e em 1991. O número de habitantes era de 867 e no último recenseamento em 2001 havia apenas 726 residentes em Castro Laboreiro, ou seja 37% dos registados em 1960.
Esta diminuição brutal da população foi ainda mais grave nos elementos do sexo masculino cujo número passou de 890 em 1960 para 274 em 2001, ou seja uma diminuição de 70%!
Como resultado desta evolução a relação média entre sexos passou a ser, nos últimos trinta anos, de 143 mulheres por cada 100 homens. Em 2001 esse valor era de 157 mulheres para 100 homens.
Quanto ao número de fogos passou de 1.148 em 1960 para 729 em 1970 e em 2001 foram inventariados 821.
Em resumo podemos afirmar que, neste período, apesar das v á rias deficiências e omissões os Censos transmitem uma ideia da evolução geral da população crasteja nos últimos 150 anos, permitindo-nos identificar dois períodos distintos. Com efeito durante quase um século, ou seja de 1864 a 1960, registou-se uma estabilidade na evolução populacional, situando-se em valores entre as 1.950 e as 2.150 pessoas. A partir de 1960 iniciou-se um período de recessão que provocou uma diminuição de 67% da população.
Algumas características da População Castreja
 
A Emigração
 
No capítulo anterior passamos em revista os registos fornecidos pelos Censos, sobretudo a partir de 1864, altura em que se iniciaram os recenseamentos decenais levados a cabo pelo Estado. Conforme também referimos no período de 1864 até 2001 registaram-se v á rios episódios com influência na demografia do País e reflexos na população crasteja . 
A partir do final da década de quarenta do século passado os crastejos v á lidos iniciaram um processo de emigração maciça, sobretudo para França, que iria despovoar a freguesia dos seus elementos activos, e que conduziria ao actual estado de desertificação humana. Os elevados rendimentos proporcionados pelos bons sal á rios, permitiria aos crastejos desenvolver uma autêntica revolução cultural, massificando o acesso dos filhos à instrução do ensino secund á rio e superior, fora do Concelho. Deste modo a população crasteja que tinha sobrevivido a todas as calamidades, mantendo-se praticamente est á vel durante quase um século, viria a diminuir quase 70% em menos de 40 anos!
Durante a última metade do século XIX a população portuguesa era caracterizada por uma taxa de natalidade elevada, que superava os efeitos da grande mortalidade infantil e lhe conferia uma configuração jovem.
 Uma outra característica tradicional era a elevada taxa de analfabetismo e a forte corrente migratória de v á rias dezenas de milhares de pessoas, sobretudo homens, que partiram em busca de melhores condições de vida, factos que se mantiveram durante quase todo o século XX. É neste contexto que se deve enquadrar a an á lise da população crasteja , acrescida do facto de a Castro Laboreiro ver diminuído o seu estatuto, passando de concelho a freguesia, pela reforma administrativa do Reino, em 1855.
Assim na indicação de algumas características da população de Castro Laboreiro, utilizamos como referência o Concelho de Melgaço e as freguesias da Vila, denominação adquirida em 1936, por se identificar com a sede do Concelho, Paderne, que a partir de 1930 passou a ocupar o primeiro lugar quanto ao efectivo populacional, em detrimento de Castro Laboreiro, e Lamas de Mouro por se tratar de uma freguesia serrana, contígua a Castro Laboreiro.
A população residente de Castro Laboreiro em 2001 representava 35 % da existente em 1864. Nesta altura Castro Laboreiro detinha 14 % da população do concelho, contra 7 % em 2001. Durante a 2ª metade do século XIX a população manteve uma tendência crescente, e em 1900 registava um acréscimo de 4% em relação aos registos do 1º Recenseamento de 1864. No mesmo período o Concelho registava um aumento global de 6% e a freguesia da Vila aumentou 24 %, enquanto a freguesia de Paderne apresentava um índice de estagnação e Lamas de Mouro somava um acréscimo de 9%.
Castro Laboreiro atinge o valor mais elevado dos 137 anos em an á lise, em 1911, com 2.687 residentes, correspondendo a um acréscimo intermedi á rio de 24% e acumulado, em relação ao ano de 1864, de 28%. A nível do Concelho o aumento decenal cifrou-se em 5%, com a freguesia da Vila a registar um acréscimo de 16%, e um acumulado de 40%,enquanto Paderne e Lamas de Mouro sofriam reduções.
Até 1960 a população de Castro Laboreiro mantém-se cerca de 7% abaixo dos valores de 1864, enquanto a do concelho na sua globalidade continuava a aumentar, atingindo um acréscimo de 24% em relação ao ano de base. No que se refere às freguesias escolhidas, Lamas de Mouro registava um aumento de 67%, constituindo o valor mais elevado dos 137 anos. A Vila continuava a sua expansão com 52% em relação a 1864, depois de atingir o valor m á ximo de todo o período em 1950 com 1.470 habitantes. Paderne, que em 1930 ultrapassara definitivamente Castro Laboreiro quanto ao número de habitantes, ficava-se por um aumento de apenas 14%, após ter chegado ao número mais elevado de 2.279 residentes em 1940.
A partir de 1970 regista-se o declínio acentuado da população castreja, com um decréscimo decenal de 18%, acompanhando o movimento regressivo da população do Concelho, que se traduziu numa diminuição de 16%. A maior regressão foi registada em Lamas de Mouro, com 60%.
O Recenseamento de 1981 consagra definitivamente o despovoamento de Castro Laboreiro, cujo número de residentes não vai além de 995, correspondendo a um decréscimo decenal de 27% e a uma diminuição de 52% em relação ao ano de comparação ou seja 1864. O decréscimo global no Concelho foi de 18% e pela 1ª vez a população registada era inferior, em 10%, à existente em 1864. Paderne perdia também 18% da sua população, contra 6 % de Lamas de Mouro. A Vila registava um aumento de 8% e atingia uma população superior em 61% à registada em 1864.
Nos vinte anos seguintes, ou seja ente 1981 e 2001, Castro Laboreiro perdeu mais 13% da sua população e iniciou o século XXI com apenas 726 residentes, correspondendo a 35% dos registados em meados do século XIX e apenas a 7% do total do Concelho. Por sua vez o Concelho na sua globalidade perdeu 22%, ficando com 68% dos residentes de 1864. Lamas de Mouro perdeu 37% e ficou com 67% dos habitantes de 1864, enquanto Paderne via reduzir os seus habitantes de 27%, para 65% dos recenseados em 1864. A Vila, embora perdendo 21% dos habitantes nas duas décadas registava, em 2001, 1 274 residentes correspondendo a um aumento de 42% em relação ao ano de base, constituindo assim um caso em que viu a sua população aumentar significativamente nos 137 anos analisados, e representando 12% da população do Concelho, contra os 6% iniciais, e tornando-se a freguesia mais populosa do Concelho e a única com características urbanas. Resumindo: Castro Laboreiro, apesar de ter perdido o estatuto de concelho em 1855, viu a sua população aumentar até 1911, mantendo-se como a freguesia mais populosa. A partir daí, e durante mais 50 anos manteve uma certa estabilidade do seu efectivo populacional, em níveis médios de 7% abaixo de 1864, embora em 1930 perdesse o 1º lugar de freguesia mais populosa a favor de Paderne. Na década de 60 o fenómeno do abandono acelerou-se e actualmente o número de habitantes não vai alem de pouco mais de sete centenas, com um densidade populacional de cerca de 8 hab km2 , contra 24 hab km2 em 1864.
Este fenómeno inseriu-se num contexto de diminuição geral da população do Concelho, embora a níveis menos acentuados
 
Estrutura Et á ria
A saída de elementos jovens e a correspondente baixa de natalidade iriam provocar uma modificação sensível ao nível da estrutura et á ria da população portuguesa, sobretudo no interior do País. A população de Castro Laboreiro, em que o abandono atingiu níveis elevados, não poderia deixar de acompanhar esse fenómeno global.
Na altura do Recenseamento de 1864, dos 1.893 Castrejos presentes 35% tinham idade inferior a 15 anos, e 28 % enquadravam-se no grupo et á rio dos 16 aos 25 anos. No conjunto a população até aos 25 anos representava 63% do total. Por outro lado o grupo dos adultos, dos 26 aos 65 anos, englobava 34% dos presentes. Curiosamente as crianças até 1 ano de idade e os idosos, com 65 anos ou mais, representavam cada um 3% do total. A pessoa mais idosa era uma viúva com idade situada entre os 86 e 90 anos. Esta distribuição traduzia a estrutura de uma população extremamente jovem, que em termos gerais estava muito próxima da verificada a nível do Concelho. Do recenseamento resultaram ainda informações sobre o estado da população, nomeadamente quanto à situação matrimonial.
No grupo masculino dos jovens até aos 25 anos, havia 6 rapazes casados com menos de 21 anos, enquanto entre as raparigas o número era de 33, das quais uma com menos de 15 anos, 4 com menos de 20 anos e 28 com idade inferior a 25 anos.
No grupo dos adultos entre os 26 e os 65 anos, registava-se uma predominância das mulheres que representavam 55% do total do grupo et á rio. Dentre os homens 45% dos que tinham mais de 20 anos estavam casados, enquanto 57% das mulheres com mais de 16 anos eram casadas. Por outro lado a percentagem de viúvos em relação aos casados era de 12% entre os homens e de 29% no caso das mulheres.
Em termos globais dentre os indivíduos do sexo masculino 68% eram solteiros, 27% casados e 5% viúvos. No referente ao segmento feminino 56% do total estavam solteiras, 34% casadas e 10% viúvas. O maior número de viúvos, de ambos os sexos, situava-se no escalão et á rio doa 56 aos 60 anos.
Decorridos 14 anos, ou seja em 1878, o perfil demogr á fico apresentava-se mais próximo de uma população adulta. Com efeito, embora o grupo dos mais jovens, com idade até aos 15 anos, continuasse a representar 34% da população presente, a faixa dos 16 aos 25 anos descia para 18% e a dos adultos, com idade entre os 25 e os 65 anos representava 46%, enquanto a dos elementos com mais de 65 anos subia para os 5%.
Quanto á distribuição por sexos a população residente castreja, no período de 1864 a 1878 apresentava-se equilibrada. O ligeiro excedente do sexo masculino era esbatido pelo facto de se registar a ausência de cerca de uma centena de homens o que invertia a situação no respeitante à população presente, onde efectivamente se constatava uma distribuição favor á vel ao sexo feminino. Ao nível do Concelho j á era notória a predominância dos elementos femininos.
Em 2001 a situação era bem diferente. O retrato da estrutura dos escassos 726 residentes era de uma população envelhecida sem possibilidade de renovação. Com efeito as crianças com idade até aos 15 anos representavam apenas 5%, enquanto os jovens dos 16 aos 25 anos não iam além dos 10% do total. Por outro lado o segmento dos adultos, entre os 26 e 65 anos de idade, representava 48% e o grupo dos idosos, com 65 anos ou mais, atingia os 37%.
Analfabetismo
 
Já referimos a elevada taxa de analfabetismo da população portuguesa e a forte corrente migratória de v á rias dezenas de milhar de emigrantes, em busca de melhores condições de vida, factos que se mantiveram durante quase todo o século XX.
Essa situação de desfavor da população portuguesa, em relação aos restantes países europeus, preocupava os responsáveis do Reino e por isso a partir de 1878 passou a constar dos actos de recenseamento o levantamento da denominada “instrução”.
Segundo os dados recolhidos nesse ano, 90 % dos homens castrejos não sabiam ler nem escrever, acontecendo o mesmo para 99,6% das mulheres. Estes números ultrapassavam em muito a taxa média de analfabetismo a nível do Concelho no caso dos homens, que era de 66%. Nas mulheres a taxa média concelhia era de 97%. A freguesia com melhores indicadores era a de Melgaço, denominada Vila a partir de 1936, com 57% para o segmento masculino e 83% para o sexo feminino. A nível do País a taxa de analfabetismo era de 73% para o sexo masculino e 85% para o sexo feminino.
Até ao final do século XIX a situação conheceu algumas melhorias a nível dos homens castrejos cuja taxa de analfabetismo em 1900 era de 79%, enquanto para as mulheres continuava nos 99%. A média do Concelho de Melgaço também melhorou ligeiramente cifrando-se em 62% para o sexo masculino e nos 94% no caso da população feminina. No âmbito do País a taxa média mantinha-se inalter á vel, com 72% para os homens e 85% para as mulheres.
O problema crónico do analfabetismo em Portugal, não encontraria solução por parte da Monarquia e sobreviria à 1ª República, e ao próprio Estado Novo.
Em 1940  Castro Laboreiro conseguiu alterar a situação, abandonando a cauda das freguesias com o menor número de habitantes que sabiam ler e escrever. Com efeito segundo o Recenseamento desse ano 59 % dos homens e 54 % das mulheres sabiam ler e escrever
É preciso referir que nessa altura a taxa de analfabetismo j á era calculada tendo como base a população com mais de sete anos de idade e não a sua totalidade como acontecera até então.
Em 1950 a percentagem de analfabetos em Castro Laboreiro descia para 42%, com 33% para os homens e 57% para as mulheres, enquanto a média no Concelho era de 36% e 59%, respectivamente.
Estava decididamente a ser ultrapassada a fase do obscurantismo e do isolamento crastejo, a que sucederia o êxodo da população.
 
© Manuel Domingues
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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O Pegureiro e o Lobo
O PEGUREIRO E O LOBO
Estórias de Castro Laboreiro
Por Manuel Domingues
 
O Livro, escrito por um crastejo, é editado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro e apoiado pela Câmara Municipal de Melgaço. Acompanha o trajecto de uma criança despertando para o Mundo nos meados do século XX, numa comunidade serrana multissecular. A descrição do cenário em que a criança passou a sua infância mostra o retrato de uma comunidade com forte identidade cultural assente em esquemas sociais e sistemas de valores de entreajuda que lhe permitiram sobreviver ao longo dos tempos perante todas as adversidades.
No início da década de quarenta. (do sec. XX) os castrejos viviam com muitas dificuldades, mas imbuídos de princípios forjando um carácter forte, independente e solidário....».
A sociedade crasteja desenvolveu-se com base em princípios e valores de cariz comunitário baseados nomeadamente «na partilha de equipamentos e bens comuns, como o forno, a eira, os baldios e a água, para consumo e rega, e na utilização mútua dos equipamentos individuais disponíveis, bem como na cedência dos próprios animais de trabalho.».
Ao mesmo tempo foi aperfeiçoando e consolidando as normas e princípios orientadores das relações entre vizinhos, que eram transmitidas oralmente de pais a filhos ao longo de gerações, permitindo determinar os comportamentos esperados de cada membro e resolver conflitos internos, protegendo o conjunto da intromissão de regras estranhas.
A subsistência económica assentava na exploração de um solo pobre cuja produção se reduzia a centeio e batatas, cultivados em barbeitos dispersos. Esta actividade era complementada com a criação de gando, e de rez que através da venda de crias proporcionava algum dinheiro, enquanto o leite reforçava a dieta alimentar e a lã fornecia grande parte da matéria-prima para o vestuário. 
Atendendo à escassez dos recursos gerados pela actividade agro-pastoril, competia aos homens angariar o resto do dinheiro necessário ao sustento da casa. A mulher, além da participação nas tarefas agrícolas, ao lado do marido, tratava da casa e dos animais e cuidava dos filhos cuja educação era também responsabilidade comunitária,
Durante muitos anos os crastejos partiram no final do Outono para outras regiões do Norte do País ou da vizinha Espanha, procurando amealhar algum dinheiro, donde regressavam no início da Primavera.
A situação viria a alterar-se radicalmente quando os dois conflitos responsáveis pela situação de crise, a guerra civil de Espanha e a 2ª grande guerra, terminaram. Com efeito a partir do final dos anos quarenta os crastejos iniciaram um processo de emigração maciça para França que em três décadas originou uma diminuição de 50 % da população e privou Castro Laboreiro da quase totalidade dos seus homens em idade activa.
«De agricultores livres, vivendo pobremente, passaram a maçons com bons salários, habitando nos bidonvilles, em condições sub humanas.»
Aos contingentes iniciais de chefes de família seguiram-se os filhos mais velhos e posteriormente os mais novos, obrigados a abandonarem a terra natal para continuarem os estudos noutras localidades do País. Como resultado do êxodo dos adultos as crianças viram-se privadas da convivência do pai e a sua participação na economia da casa passou a ser indispensável desde tenra idade.
Com o decorrer do tempo e a melhoria das condições de vida, os valores fundamentais que suportaram a sociedade crasteja e os princípios em que assentava a formação do carácter dos jovens caíram em desuso, fazendo ruir os seus alicerces, enquanto a aculturação generalizada das novas gerações provocava conflitos e situações de desenraizamento. A solidariedade nos momentos difíceis foi substituída pelo exacerbar do individualismo e os elementos fundamentais de uma cultura centenária votados ao ostracismo, pelo abandono das actividades a que estiveram ligados e pelo desinteresse geral.
«O êxito na luta pela melhoria das condições de vida, provocou uma situação de quase desaparecimento da cultura que impulsionou essa mesma conquista de bem-estar.»
É neste cenário que as estórias se desenvolvem e a criança se vai transformando em adulto, até chegar a altura de abandonar a terra para estudar e construir a sua própria vida noutros locais. Atenta aos perigos que se adivinhavam antes da partida lança o primeiro grito de alerta, que não encontrou eco. Iniciada a cavalgada da vida interrompeu a intimidade com a terra mãe. Quando reatou a ligação de cumplicidade encontrou as raízes que os ligavam definhadas, num ambiente de desertificação humana. Num misto de saudade e gratidão a criança, envelhecida, decide fazer um esforço derradeiro para evitar que a cultura responsável pela formação do carácter franco, lutador, independente e solidário dos crastejos seja lançada no precipício do esquecimento e na ingratidão dos homens ou «reduzida a um simples monte de vestígios exóticos para turista ver, esmagado pelos símbolos arrivistas da “cultura” trolha, e transformada numa espécie de reserva cultural índia do século XXI».
A obra é complementada com o inventário de dezenas de vocábulos e regionalismos crastejos, já muito próximos da extinção.
O Autor nasceu em 1941, em Castro Laboreiro, onde frequentou a instrução primária. Participou activamente na vida agro-pastoril, em tarefas próprias da sua idade, e manteve-se fortemente ligado á terra natal até ao final dos estudos universitários no âmbito das ciências sociais, que completou em Paris, com uma post graduação, como bolseiro do Governo Francês. Cumprido o serviço militar na Guiné, cuja experiência relatou em livro, iniciou a sua vida profissional de gestor e consultor de empresas no maior grupo económico nacional de então. Mais tarde seria docente universitário e gestor em grandes empresas e serviços públicos, e coordenador de projectos estratégicos de reestruturação empresarial no sector da cerveja, dos seguros da celulose, do transporte aéreo e da administração pública, entre outros. Foi ainda Secretário Geral do Ministério da Agricultura durante cerca de nove anos, de 1985 a 1993, sendo responsável directo pela implementação da política de Modernização, Reorganização e Informatização do Ministério, em grande parte resultante da adesão à então CEE. Participou na liderança de projectos de tratamento de informação a nível europeu e foi expert independente da OCDE, no âmbito da modernização administrativa. Algumas das experiências foram relatadas em livros e revistas da especialidade. Em 1964.
Ainda estudante, fundou a Página de Castro Laboreiro, que 40 anos após A Neve constituiu o 2º espaço jornalístico dedicado exclusivamente à cultura crasteja.
No início do século XXI reatou os contactos com a sua terra natal, constatando que a sociedade de cariz comunitário na qual despertara para o mundo, e que enformara a sua maneira de encarar a vida, se encontrava em fase de desmoronamento, devido à desertificação e ao abandono das actividades tradicionais. Inconformado com o ostracismo a que estava votada a cultura crasteja resolveu aliar-se aos focos resistentes através da narração de < <...... memórias reais ficcionadas, na primeira pessoa, dos primordiais problemas que apertaram o quotidiano da comunidade crasteja, principalmente a partir de meados do século XX, desde a emigração, o contrabando, a exploração do minério, a florestação, os estudantes … ataviado de graciosos pormenores da alma social castreja que – assevera o autor – “para a contar é preciso tê-la vivido”>>.
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publicado por crastejo às 01:47
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O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro(1)
 O PEGUREIRO E O LOBO
 

Castro Laboreiro é o país da chuvia, do sol, do vento.
É tamén o país do granito, da neve, do desolado planalto, da carqueixa, do lameiro eternamente verde.
 o país da cultura popular. Un laboratorio etnográfico.
É o país dos traballos. Da emigración. So sacrificio. Das viúvas de vivos. Das ausencias. Dos azares e soños rotos.
É o país da saudade, do queixume, da esperanza, das ansias de plenitude.
É o país onde a historia se torna estória.
É, porfin, o principio do mundo: O MUNDO. É no principio do mundo que nace, en 1941, Manuel Domingues. A dura experiencia do traballo agro‑pastoril márcao profundamente. Comeza a estudar ciencias sociais, terminando os cursos en París como bolseiro do goberno francês. Foi talvez o primeiro crastexo residente en Franza, non sendo emigrante "strictu sensu". Cumpre o servizo militar en África, relatando en libro a terribel experiencia. Crea, por volta de 1960 a sección "Página de Castro Laboreiro" no jornal "Notícias de Melgaço". Profesor universitario, xestor e consultor de grandes empresas, chega a ser secretario xeral do ministerio de agricultura. Progresivamente, volta à súa (nosa) terra. Na actualidade, xunto con Américo Rodrigues, dirixe o Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, organizando as xa míticas xornadas e relatorios de investigación que se celebran todos os meses de Agosto na Vila de Castro. Editan a revista "Porto dos Cavaleiros".
"O Pegureiro e o Lobo" non é apenas un relato. É MITOLOXIA Co estilo e coa intencionalidade dos clásicos gregos, relata, por veces en primeira, por veces en terceira persoa o percurso vital do autor. Como Ulises na Odisea, e tamén como o capitán Willard de Apocalypse Now, a vida de Manuel Domingues é un espello onde se reflicten os secretos desejos, anceios, temores, esperanzas e mesmo as dúbidas da condición humana.
O marco é para nós, os arraianos, moi familiar. Cunha linguaxe directa e sinxela, nos fala das súas raíces personais, do duro traballo na terra, da forxa do seu carácter. Fálanos do seu enfado após a lectura dalgún artigo sobre os crastexos, cheo de preconceptos e menosprezo. Saberemos dos seus problemas para fundar un pequeno jornal sobre a súa (nosa) terra, e das promesas sagradas antes de iniciar o seu periplo estudiantil e militar. Coñeceremos París, e as lamentábeis condicións de vida dos emigrantes portugueses. Con el haberemos ir à Bretaña a Italia...
É porfin o relato da loita eterna dos homes coa vida, contra ese LOBO que tan totemicamente encarna os particulares e diabolicos fantasmas arraianos: A falta de espazo (mental) público, a non inscrición dos factos na historia, o arcaísmo posmoderno, o curtoplacismo, a pequenez, a improvisación, o horror vacui, a lentitude, a violencia oculta.... O MEDO.                          XULIO MEDELA                                                                                                                              ARRAIANOS             IV 2005
 
 
 
 


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O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro(2)
O Pegureiro e o Lobo,
 
recomendado para as escolas secundárias galegas, em Encontro Cultural Raiano
 
No dia 1 de Abril, teve lugar na Livraria Torga em Ourense , o lançamento do Livro O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro,  do castrejo Manuel Domingues, o qual serviu de base à realização de um encontro cultural raiano .
A sessão contou com a participação do Prof. Isaac Estraviz , apresentador do livro, do Autor, Manuel Domingues, que referiu o contexto que originou o Livro e os seus objectivos, Júlio Medela , investigador de assuntos raianos , Manuel Rivero Perez , sociólogo que abordou o papel do forno comunitário na convivência social raiana .
Américo Rodrigues, do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, apresentou uma panorâmica global da paisagem cultural castreja enquanto José Domingues, igualmente do Núcleo, transmitiu algumas conclusões inéditas resultantes da sua investigação histórica sobre o relacionamento entre a tomada do Castelo de Castro Laboreiro e o Recontro dos Arcos de Valdevez, a partir dos elementos constantes da carta de couto do Mosteiro de Paderne de 16 de Abril de 1141, e que até à data, apesar da sua proximidade geográfica, ainda não foi estabelecida qualquer ligação entre os dois acontecimentos históricos da época da fundação da nacionalidade.
Participou ainda a AGAL , através do seu director Vítor Peres, que também forneceu os meios audiovisuais.
O professor Estraviz começou por situar o Livro no contexto cultural raiano , referindo aspectos da sua vivência com cenas muito semelhantes às descritas no Pegureiro e o Lobo, para significar a proximidade entre as culturas crasteja e galega. Quanto ao Livro salientou o «fantástico aspecto do livro e a excelente qualidade literária, escrito de uma forma lapidar, num português vivo, em parágrafos curtos, com um vocabulário estupendo, fazendo com que não haja nenhum português ou galego que não o entenda».
Num contexto de globalização tentam impingirmos valores e culturas estranhos, nomeadamente americanos, e este livro vem lembrar que é aqui, na zona raiana , que palpita a vida e está a Humanidade, não precisando de importar modelos da América, da Alemanha ou de qualquer outro lugar", continuou o Professor.
"O livro é marcado por dois protagonistas: o Manuel impregnado pelo amor profundo às suas raízes e Castro Laboreiro, que se exprime através das suas gentes, dos cotos e da paisagem, numa linguagem viva que escapa aos dicionaristas, porque de facto o galego e o português não tiveram origem nas cortes palacianas, nem se circunscrevem ao que consta dos dicionários. Muito antes deles já os povos o falavam e foram preservando essa cultura através de regionalismos, muitos dos quais aparecem no livro.
Por tudo isto entendo que este livro deveria estar em todas as escolas galegas do ensino secundário e ser lido por todos os amantes da cultura galega, a começar pelos que aqui se encontram", concluiu Estraviz .
Por seu lado, Júlio Medela , analisou o Livro numa perspectiva da alma raiana . «Ter nas mãos O Pegureiro e o Lobo é o regresso a casa. É o apocalipse revelador do retorno ao idêntico. É um renascimento espiritual» disse. O livro demonstra e faz fé da influência da paisagem na alma raiana , mais entranhada na natureza do que na sociedade, no cosmológico mais do que no social", continuou Medela .
Desenvolvendo a sua explanação em redor de um sentimento próprio e dum espírito totémico que enforma a mítica República dos Raianos , situando o livro no contexto da recuperação da memória histórica e semântica, indispensável à procura da realidade e aprofundamento do mito raiano .
O Encontro Cultural raiano prosseguiu após o lançamento do livro com uma visita guiada pelo Professor Estraviz a um conjunto espectacular de monumentos históricos, situado a cerca de 20 quilómetros a SE de Ourense em pequenos povoados, em Santa Marinha de Águas Santas
Em poucas dezenas de metros podiam observar-se antas ao lado de castros, e uma igreja inacabada construída sobre uma estação de banhos romanos em perfeito estado de conservação. Em toda a região paira o espírito e manifesta-se a fé numa Santa que mercê de vários milagres conseguiu escapar à perseguição romana e em cuja memória se ergue uma monumental igreja romano-gótica . É uma amostra do imenso património histórico espalhado um pouco por toda a zona raiana , que embora esquecido se encontra bem preservado. Enquanto espera melhores tempos para ser divulgado vai mantendo vivas as tradições e lendas que enformam a cultura popular da região.
Este encontro cultural foi possível pelo interesse de alguns castrejos e galegos na preservação e divulgação da sua cultura inserindo-a no processo em marcha de recuperação e defesa da paisagem cultural raiana a que O Pegureiro e o Lobo veio dar um contributo que os intervenientes consideraram como fundamental.
 


publicado por crastejo às 00:52
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