Sábado, 6 de Maio de 2006
Castro Laboreiro - Deserticação de uma zona raiana
Castro Laboreiroaté meados do século passado, era uma Comunidade raiana do Alto Minho com cerca de 2.000 habitantes.
Explorando um solo pobre e utilizando métodos ancestrais, foi sobrevivendo mediante o desenvolvimento de um sistema agro pastoril, aproveitando as pastagens dos extensos baldios. Simultaneamente foi criando esquemas comunitários de ajuda e solidariedade entre vizinhos que permitiam encarar e resolver as situações mais difíceis de uma qualquer desgraça que se abatia sobre um dos membros da comunidade. Isolada durante séculos, criou normas e princípios que lhe permitiam resolver os problemas internos, evitando o recurso a meios estranhos. A sua cultura manteve-se inalter á vel às influências exteriores. O sistema de valores assentava no respeito pelos mais velhos e no repúdio pelos que não respeitavam a palavra dada ou os valores alheios.
Numa sociedade onde o dinheiro era escasso a ajuda pagava-se com ajuda e a compra de serviços entre vizinhos era esconjurada. Para garantir a sua sobrevivência o homem castrejo emigrava sazonalmente para outras zonas do País ou para a vizinha Espanha, no Outono e Inverno, altura em que os afazeres agrícolas eram reduzidos e voltava na Primavera para iniciar as sementeiras. Alguns, no entanto, partiam para terras mais longínquas como as Américas, sobretudo para o Brasil, onde permaneciam v á rios anos até conseguirem amealhar o que consideravam suficiente para acautelarem as necessidades b á sicas. Este quadro alterou-se profundamente a partir da 2ª metade do século XX, com a emigração maciça para França.
 O dinheiro amealhado provocou uma mudança radical no modo de vida desde a habitação ao investimento na educação dos filhos que para continuarem os estudos tiveram de abandonar a terra natal, na procura de estabelecimento de ensino que não existiam no concelho. Assim a terra foi-se despovoando e em menos de quatro décadas a população diminuiu cerca de 2/3, ficando reduzida a cerca de setecentos habitantes, dos quais 37% tinham em 2001 mais de 65 anos de idade.
Perante este fenómeno, comum ao interior rural do País, decidimos fazer uma incursão pelos registos históricos fornecidos pelos recenseamentos oficias, desde que foram implementados em 1864. A An á lise baseia-se em elementos fornecidos pelos censos a partir de 1864, altura em que se iniciaram os recenseamentos decenais levados a cabo pelo Estado.
Durante o período de 1864 até 2001 registaram-se v á rios episódios com influência na demografia do País e reflexos na população crasteja .
O primeiro foi a queda da Monarquia em 1910, seguida de uma instabilidade social que aumentou a crise económica e social do País e dificultou as migrações internas dos crastejos , agravando as suas dificuldades económicas. A 1ª Grande Guerra, de 1914-18, além de dizimar milhares de jovens militares portugueses veio impossibilitar a emigração nacional destinada à Europa.
Entretanto a partir de Abril de 1918 espalha-se pela Europa a designada Pneumónica ou Gripe Espanhola, que em pouco mais de um ano dizimou, a nível mundial, entre 20 a 40 milhões de pessoas. Todos os exércitos estacionados na Europa foram severamente afectados pela doença, calculando-se que cerca de 80% das mortes da força naval americana se deveram à gripe. A pandemia chegou a Portugal, no mês de Maio e verificou-se uma elevadíssima taxa de letalidade , com duas ondas epidémicas e uma incidência muito marcada no grupo dos 20 aos 40 anos, afectando igualmente a população castreja.
A guerra civil espanhola, de 1936 a 1939 e a segunda Guerra Mundial, se por um lado tornaram inacessíveis os principais destinos migratórios dos castrejos, por outro provocaram a destruição dos países europeus que após o término dos conflitos iriam necessitar de grandes quantidades de mão de obra para a sua reconstrução.
Assim a partir do final da década de quarenta do século passado os portugueses v á lidos, sobretudo do interior rural, iniciaram um processo de emigração maciça, em direcção à Europa, que iria despovoar o mesmo interior dos seus elementos activos, e provocaria igualmente uma acentuada baixa da natalidade e posterior envelhecimento da população.
A nível nacional as elevadas remessas dos emigrantes iriam permitir equilibrar a depauperada balança de pagamentos durante cerca de 4 décadas.
No concelho de Melgaço, e em Castro Laboreiro, a emigração orientou-se sobretudo para França, logo no final da década de quarenta do século XX e intensificou-se nas décadas seguintes de tal modo que no início dos anos sessenta j á existiam v á rias carreiras de camionagem que semanalmente ligavam a sede do Concelho directamente a Paris.
Em Castro Laboreiro, além da melhoria da habitação e das condições de vida do agregado familiar, o dinheiro da emigração provocou uma autêntica revolução cultural, massificando o acesso dos filhos à instrução do ensino secund á rio e superior, e que ao terem de deslocar-se para outras localidades para frequentarem estabelecimentos de ensino inexistentes no Concelho, engrossaram o caudal de saídas. Deste modo a população crasteja que tinha sobrevivido a todas as calamidades, mantendo-se praticamente est á vel durante quase um século, viria a diminuir 63% em menos de 40 anos!
O fenómeno de diminuição de efectivos devido à emigração foi uma constante de âmbito nacional durante quase todo o século XX. O quadro da população portuguesa revelava uma outra característica conferida pela elevada taxa de analfabetismo, que os recenseamentos a partir de 1878 confirmavam.
É neste contexto de um país com elevadíssimas taxas de analfabetismo, com a maior parte da população rural vivendo em condições de grande carência originando uma constante corrente migratória de cariz económico, na procura de melhores condições de vida, que se deve enquadrar a an á lise da população castreja, juntamente com as particularidades de uma região isolada, explorando um solo pobre, com técnicas ancestrais.
Acresce ainda o facto de ter perdido o estatuto de sede de concelho, decretada pela reorganização político administrativa do Reino em 1855.
Para facilitar o referido enquadramento utilizamos elementos comparativos referentes à população do Concelho de Melgaço e de três freguesias.
Escolhemos a de Melgaço, denominada Vila a partir de 1936, por se identificar com a sede do  Concelho e a de Paderne, por ser a freguesia da Ribeira que até 1930 ocupava o 2º lugar quanto ao número de habitantes, a seguir a Castro Laboreiro, e que a partir daquele ano passou a ser a mais populosa. Incluímos ainda Lamas de Mouro por ser uma freguesia serrana, contígua a Castro Laboreiro.
 
 a) - Evolução dos efectivos
 
1 - Estabilidade (1864 – 1960)
 
A nível geral a população de Castro Laboreiro, segundo os Censos eclesi á sticos, ter á evoluído de 1.412 pessoas, em 1758, para 1.840 em 1845.
No primeiro recenseamento geral da população realizado no País em 1864, pelo Estado, foram registados 2.092 habitantes. No recenseamento de 1878 a população era de 1.998 pessoas e em 1890 atingia os 2.145 habitantes enquanto em 1900 era de 2.175. Relativamente a este período os Censos referem a população legal, ou seja com residência declarada na Freguesia, e a população de facto, presente na altura do recenseamento, que hoje se designam por população residente e população presente, respectivamente.
Nos Censos de 1864 a 1900 pode-se observar a referência a um número elevado de homens ausentes na altura dos Censos que rondava os 100 e que em 1890 atingia os 524. Estas ausências poderão estar ligadas à emigração sazonal que ia do final do Outono ao princípio da Primavera.
Relativamente à distribuição por sexos encontramos uma primeira referência em 1825 em que a percentagem de homens é ligeiramente superior à das mulheres,.situação confirmada no Censo de 1864. A partir daí a tendência inverte-se e o número de mulheres ultrapassa definitivamente o dos homens. Ainda neste período final do século XIX, podemos observar referências à elevada taxa de analfabetismo da população crasteja que em 1878 era de 81% nos homens e 90 % nas mulheres.
Quanto ao número de fogos a primeira referência dos Censos eclesi á sticos é de 1527 indicando uma centena. Em 1706 são referidos 567 fogos, número mais elevado constante dos registos eclesi á sticos, dado que a partir daí decresce até aos 318 em 1801, para voltar a aumentar chegando aos 535 no registo de 1845.
O Censo de 1864 registava 542 fogos e 14 anos depois, em 1878, são referidos 610 fogos, enquanto em 1900 não iam além de 462. Convém referir que estas variações não têm correspondência com as registadas ao nível da população, parecendo resultar da mudança de critérios na contagem face à própria definição de fogo utilizada na altura, e à dificuldade introduzida pela existência das brandas e inverneiras .
O número de habitantes registado no início do século XX, recenseamento de 1900, mostra-se concordante com o anterior e com a tendência para uma certa estabilidade da população crasteja à volta dos dois milhares de pessoas, que se iria manter até 1960. No entanto os números apresentados pelo Censo de 1911 registavam como residentes 2.687 pessoas., correspondendo a um aumento da população de cerca de 21%, em relação aos 2.145 elementos registados no Censo de 1900. A única explicação apontada para este aumento da população, cujo acréscimo nas restantes freguesias do Concelho, no mesmo período, foi de escassos 2%, é a perturbação política e económica que grassava no País, devido à queda do regime mon á rquico, que naturalmente atingia os destinos nacionais da emigração sazonal crasteja . O próprio recenseamento, previsto para 1910, não escapou à instabilidade reinante e teve de ser adiado um ano. Na altura da sua efectivação estavam presentes 34 elementos não residentes e ausentes 87 castrejos, eventualmente envolvidos na emigração tradicional.
No Censo de 1920 consta o registo de 1.919 residentes. Conforme j á referimos esta queda brusca teve a ver com a devastação da pneumónica, que vitimou fundamentalmente as mulheres, como de resto em todo o País, acabando por colocar a população em valores próximos da média do período de 1864 a 1960. De facto em 1940 havia 1.975 residentes, em 1950 eram 1.944 e em 1960 o número de habitantes era de 1.941. A partir desta data a frieza dos números passa a reflectir o fenómeno da emigração maciça para França e a saída posterior dos mais jovens por motivo de estudos
No período de 1900 a 1960 os Censos continuam a demonstrar a predominância da população feminina com um valor m á ximo de 137 mulheres por cada 100 homens em 1911 e uma relação média, durante o período, de 120 mulheres por cada 100 homens.
Por outro lado a partir de 1930 notam-se melhorias sensíveis dos números referentes ao analfabetismo, que em 1950 registava taxas de 28% para os homens e 57% para as mulheres.
No que se refere ao número de fogos verificam-se grandes variações decenais. Assim de 462 em 1900 atinge os 751 em 1911, descendo para 444 em 1920 e para 440 em 1930. Em 1940 é realizado o primeiro recenseamento geral da habitação, em simultâneo com o da população e o número obtido foi de 821. Ali á s este número encontra algum paralelismo com o registado em 1911, altura em que pela primeira vez aparecem descriminados os lugares. O valor mais elevado é registado no Censo de 1960 com 1.148 alojamentos, conceito que tinha sido introduzido para substituir o de fogo. As variações dos valores, incluindo as brandas e inverneiras , em nosso entender só encontram justificação nos motivos j á referidos, ou seja a dificuldade em compreenderem o fenómeno brandas inverneiras , e as diferenças de metodologia dos v á rios Censos, acabando por misturar o conceito de residente e presente.
 
2 - Declínio (1970-2001)
 
 A partir de 1970 os Censos reflectem a diminuição dr á stica da população, pelos motivos já apontados. Assim em 1970 o número de habitantes descia para 1.560 e em 1981 para 1.092, representando uma diminuição de 44% da população. Este decréscimo iria continuar e em 1991. O número de habitantes era de 867 e no último recenseamento em 2001 havia apenas 726 residentes em Castro Laboreiro, ou seja 37% dos registados em 1960.
Esta diminuição brutal da população foi ainda mais grave nos elementos do sexo masculino cujo número passou de 890 em 1960 para 274 em 2001, ou seja uma diminuição de 70%!
Como resultado desta evolução a relação média entre sexos passou a ser, nos últimos trinta anos, de 143 mulheres por cada 100 homens. Em 2001 esse valor era de 157 mulheres para 100 homens.
Quanto ao número de fogos passou de 1.148 em 1960 para 729 em 1970 e em 2001 foram inventariados 821.
Em resumo podemos afirmar que, neste período, apesar das v á rias deficiências e omissões os Censos transmitem uma ideia da evolução geral da população crasteja nos últimos 150 anos, permitindo-nos identificar dois períodos distintos. Com efeito durante quase um século, ou seja de 1864 a 1960, registou-se uma estabilidade na evolução populacional, situando-se em valores entre as 1.950 e as 2.150 pessoas. A partir de 1960 iniciou-se um período de recessão que provocou uma diminuição de 67% da população.
Algumas características da População Castreja
 
A Emigração
 
No capítulo anterior passamos em revista os registos fornecidos pelos Censos, sobretudo a partir de 1864, altura em que se iniciaram os recenseamentos decenais levados a cabo pelo Estado. Conforme também referimos no período de 1864 até 2001 registaram-se v á rios episódios com influência na demografia do País e reflexos na população crasteja . 
A partir do final da década de quarenta do século passado os crastejos v á lidos iniciaram um processo de emigração maciça, sobretudo para França, que iria despovoar a freguesia dos seus elementos activos, e que conduziria ao actual estado de desertificação humana. Os elevados rendimentos proporcionados pelos bons sal á rios, permitiria aos crastejos desenvolver uma autêntica revolução cultural, massificando o acesso dos filhos à instrução do ensino secund á rio e superior, fora do Concelho. Deste modo a população crasteja que tinha sobrevivido a todas as calamidades, mantendo-se praticamente est á vel durante quase um século, viria a diminuir quase 70% em menos de 40 anos!
Durante a última metade do século XIX a população portuguesa era caracterizada por uma taxa de natalidade elevada, que superava os efeitos da grande mortalidade infantil e lhe conferia uma configuração jovem.
 Uma outra característica tradicional era a elevada taxa de analfabetismo e a forte corrente migratória de v á rias dezenas de milhares de pessoas, sobretudo homens, que partiram em busca de melhores condições de vida, factos que se mantiveram durante quase todo o século XX. É neste contexto que se deve enquadrar a an á lise da população crasteja , acrescida do facto de a Castro Laboreiro ver diminuído o seu estatuto, passando de concelho a freguesia, pela reforma administrativa do Reino, em 1855.
Assim na indicação de algumas características da população de Castro Laboreiro, utilizamos como referência o Concelho de Melgaço e as freguesias da Vila, denominação adquirida em 1936, por se identificar com a sede do Concelho, Paderne, que a partir de 1930 passou a ocupar o primeiro lugar quanto ao efectivo populacional, em detrimento de Castro Laboreiro, e Lamas de Mouro por se tratar de uma freguesia serrana, contígua a Castro Laboreiro.
A população residente de Castro Laboreiro em 2001 representava 35 % da existente em 1864. Nesta altura Castro Laboreiro detinha 14 % da população do concelho, contra 7 % em 2001. Durante a 2ª metade do século XIX a população manteve uma tendência crescente, e em 1900 registava um acréscimo de 4% em relação aos registos do 1º Recenseamento de 1864. No mesmo período o Concelho registava um aumento global de 6% e a freguesia da Vila aumentou 24 %, enquanto a freguesia de Paderne apresentava um índice de estagnação e Lamas de Mouro somava um acréscimo de 9%.
Castro Laboreiro atinge o valor mais elevado dos 137 anos em an á lise, em 1911, com 2.687 residentes, correspondendo a um acréscimo intermedi á rio de 24% e acumulado, em relação ao ano de 1864, de 28%. A nível do Concelho o aumento decenal cifrou-se em 5%, com a freguesia da Vila a registar um acréscimo de 16%, e um acumulado de 40%,enquanto Paderne e Lamas de Mouro sofriam reduções.
Até 1960 a população de Castro Laboreiro mantém-se cerca de 7% abaixo dos valores de 1864, enquanto a do concelho na sua globalidade continuava a aumentar, atingindo um acréscimo de 24% em relação ao ano de base. No que se refere às freguesias escolhidas, Lamas de Mouro registava um aumento de 67%, constituindo o valor mais elevado dos 137 anos. A Vila continuava a sua expansão com 52% em relação a 1864, depois de atingir o valor m á ximo de todo o período em 1950 com 1.470 habitantes. Paderne, que em 1930 ultrapassara definitivamente Castro Laboreiro quanto ao número de habitantes, ficava-se por um aumento de apenas 14%, após ter chegado ao número mais elevado de 2.279 residentes em 1940.
A partir de 1970 regista-se o declínio acentuado da população castreja, com um decréscimo decenal de 18%, acompanhando o movimento regressivo da população do Concelho, que se traduziu numa diminuição de 16%. A maior regressão foi registada em Lamas de Mouro, com 60%.
O Recenseamento de 1981 consagra definitivamente o despovoamento de Castro Laboreiro, cujo número de residentes não vai além de 995, correspondendo a um decréscimo decenal de 27% e a uma diminuição de 52% em relação ao ano de comparação ou seja 1864. O decréscimo global no Concelho foi de 18% e pela 1ª vez a população registada era inferior, em 10%, à existente em 1864. Paderne perdia também 18% da sua população, contra 6 % de Lamas de Mouro. A Vila registava um aumento de 8% e atingia uma população superior em 61% à registada em 1864.
Nos vinte anos seguintes, ou seja ente 1981 e 2001, Castro Laboreiro perdeu mais 13% da sua população e iniciou o século XXI com apenas 726 residentes, correspondendo a 35% dos registados em meados do século XIX e apenas a 7% do total do Concelho. Por sua vez o Concelho na sua globalidade perdeu 22%, ficando com 68% dos residentes de 1864. Lamas de Mouro perdeu 37% e ficou com 67% dos habitantes de 1864, enquanto Paderne via reduzir os seus habitantes de 27%, para 65% dos recenseados em 1864. A Vila, embora perdendo 21% dos habitantes nas duas décadas registava, em 2001, 1 274 residentes correspondendo a um aumento de 42% em relação ao ano de base, constituindo assim um caso em que viu a sua população aumentar significativamente nos 137 anos analisados, e representando 12% da população do Concelho, contra os 6% iniciais, e tornando-se a freguesia mais populosa do Concelho e a única com características urbanas. Resumindo: Castro Laboreiro, apesar de ter perdido o estatuto de concelho em 1855, viu a sua população aumentar até 1911, mantendo-se como a freguesia mais populosa. A partir daí, e durante mais 50 anos manteve uma certa estabilidade do seu efectivo populacional, em níveis médios de 7% abaixo de 1864, embora em 1930 perdesse o 1º lugar de freguesia mais populosa a favor de Paderne. Na década de 60 o fenómeno do abandono acelerou-se e actualmente o número de habitantes não vai alem de pouco mais de sete centenas, com um densidade populacional de cerca de 8 hab km2 , contra 24 hab km2 em 1864.
Este fenómeno inseriu-se num contexto de diminuição geral da população do Concelho, embora a níveis menos acentuados
 
Estrutura Et á ria
A saída de elementos jovens e a correspondente baixa de natalidade iriam provocar uma modificação sensível ao nível da estrutura et á ria da população portuguesa, sobretudo no interior do País. A população de Castro Laboreiro, em que o abandono atingiu níveis elevados, não poderia deixar de acompanhar esse fenómeno global.
Na altura do Recenseamento de 1864, dos 1.893 Castrejos presentes 35% tinham idade inferior a 15 anos, e 28 % enquadravam-se no grupo et á rio dos 16 aos 25 anos. No conjunto a população até aos 25 anos representava 63% do total. Por outro lado o grupo dos adultos, dos 26 aos 65 anos, englobava 34% dos presentes. Curiosamente as crianças até 1 ano de idade e os idosos, com 65 anos ou mais, representavam cada um 3% do total. A pessoa mais idosa era uma viúva com idade situada entre os 86 e 90 anos. Esta distribuição traduzia a estrutura de uma população extremamente jovem, que em termos gerais estava muito próxima da verificada a nível do Concelho. Do recenseamento resultaram ainda informações sobre o estado da população, nomeadamente quanto à situação matrimonial.
No grupo masculino dos jovens até aos 25 anos, havia 6 rapazes casados com menos de 21 anos, enquanto entre as raparigas o número era de 33, das quais uma com menos de 15 anos, 4 com menos de 20 anos e 28 com idade inferior a 25 anos.
No grupo dos adultos entre os 26 e os 65 anos, registava-se uma predominância das mulheres que representavam 55% do total do grupo et á rio. Dentre os homens 45% dos que tinham mais de 20 anos estavam casados, enquanto 57% das mulheres com mais de 16 anos eram casadas. Por outro lado a percentagem de viúvos em relação aos casados era de 12% entre os homens e de 29% no caso das mulheres.
Em termos globais dentre os indivíduos do sexo masculino 68% eram solteiros, 27% casados e 5% viúvos. No referente ao segmento feminino 56% do total estavam solteiras, 34% casadas e 10% viúvas. O maior número de viúvos, de ambos os sexos, situava-se no escalão et á rio doa 56 aos 60 anos.
Decorridos 14 anos, ou seja em 1878, o perfil demogr á fico apresentava-se mais próximo de uma população adulta. Com efeito, embora o grupo dos mais jovens, com idade até aos 15 anos, continuasse a representar 34% da população presente, a faixa dos 16 aos 25 anos descia para 18% e a dos adultos, com idade entre os 25 e os 65 anos representava 46%, enquanto a dos elementos com mais de 65 anos subia para os 5%.
Quanto á distribuição por sexos a população residente castreja, no período de 1864 a 1878 apresentava-se equilibrada. O ligeiro excedente do sexo masculino era esbatido pelo facto de se registar a ausência de cerca de uma centena de homens o que invertia a situação no respeitante à população presente, onde efectivamente se constatava uma distribuição favor á vel ao sexo feminino. Ao nível do Concelho j á era notória a predominância dos elementos femininos.
Em 2001 a situação era bem diferente. O retrato da estrutura dos escassos 726 residentes era de uma população envelhecida sem possibilidade de renovação. Com efeito as crianças com idade até aos 15 anos representavam apenas 5%, enquanto os jovens dos 16 aos 25 anos não iam além dos 10% do total. Por outro lado o segmento dos adultos, entre os 26 e 65 anos de idade, representava 48% e o grupo dos idosos, com 65 anos ou mais, atingia os 37%.
Analfabetismo
 
Já referimos a elevada taxa de analfabetismo da população portuguesa e a forte corrente migratória de v á rias dezenas de milhar de emigrantes, em busca de melhores condições de vida, factos que se mantiveram durante quase todo o século XX.
Essa situação de desfavor da população portuguesa, em relação aos restantes países europeus, preocupava os responsáveis do Reino e por isso a partir de 1878 passou a constar dos actos de recenseamento o levantamento da denominada “instrução”.
Segundo os dados recolhidos nesse ano, 90 % dos homens castrejos não sabiam ler nem escrever, acontecendo o mesmo para 99,6% das mulheres. Estes números ultrapassavam em muito a taxa média de analfabetismo a nível do Concelho no caso dos homens, que era de 66%. Nas mulheres a taxa média concelhia era de 97%. A freguesia com melhores indicadores era a de Melgaço, denominada Vila a partir de 1936, com 57% para o segmento masculino e 83% para o sexo feminino. A nível do País a taxa de analfabetismo era de 73% para o sexo masculino e 85% para o sexo feminino.
Até ao final do século XIX a situação conheceu algumas melhorias a nível dos homens castrejos cuja taxa de analfabetismo em 1900 era de 79%, enquanto para as mulheres continuava nos 99%. A média do Concelho de Melgaço também melhorou ligeiramente cifrando-se em 62% para o sexo masculino e nos 94% no caso da população feminina. No âmbito do País a taxa média mantinha-se inalter á vel, com 72% para os homens e 85% para as mulheres.
O problema crónico do analfabetismo em Portugal, não encontraria solução por parte da Monarquia e sobreviria à 1ª República, e ao próprio Estado Novo.
Em 1940  Castro Laboreiro conseguiu alterar a situação, abandonando a cauda das freguesias com o menor número de habitantes que sabiam ler e escrever. Com efeito segundo o Recenseamento desse ano 59 % dos homens e 54 % das mulheres sabiam ler e escrever
É preciso referir que nessa altura a taxa de analfabetismo j á era calculada tendo como base a população com mais de sete anos de idade e não a sua totalidade como acontecera até então.
Em 1950 a percentagem de analfabetos em Castro Laboreiro descia para 42%, com 33% para os homens e 57% para as mulheres, enquanto a média no Concelho era de 36% e 59%, respectivamente.
Estava decididamente a ser ultrapassada a fase do obscurantismo e do isolamento crastejo, a que sucederia o êxodo da população.
 
© Manuel Domingues
 
 
 
 
 
 
 
 
 


publicado por crastejo às 17:26
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