Terça-feira, 18 de Setembro de 2007
A Vingança da PIDE e O Passaporte a Domocílio
 
 
 
 
Numa manhã invernosa de Sábado o Manuel encontrava-se em casa, sem vontade de expor-se ao mau tempo, observado através da marquise envidraçada, voltada para o quintal onde uma pereira abacate de grande porte aguentava estoicamente as vergastadas da chuva que impulsionadas pelo vento a faziam dobrar quase em ângulo recto.
Ouviu tocar a campainha e foi espreitar pelo óculo da porta, avistando um homem com cerca de trinta anos impecavelmente vestido. Abriu a porta e o homem, numa atitude quase militar, perguntou pelo seu nome. Embora surpreendido, confirmou ser ele.
— Trago uma encomenda a entregar unicamente ao próprio. Mostre-me o Bilhete de Identidade e assine aqui, por favor— disse estendendo o livro do protocolo, e ao mesmo tempo recebendo o documento de identificação cujos elementos anotou.
Recebeu de volta o livro e entregou um envelope juntamente com o Bilhete de Identidade, despedindo-se com um amável bom dia. Olhou para o envelope onde constava o escudo da República e a designação de Governo Civil de Lisboa. Abriu-o apressadamente, e dentro encontrou o seu passaporte. Sem perceber muito bem olhou atentamente para aquele livrinho de capa verde com o escudo nacional e o nome de Portugal gravado em letras douradas e sentiu uma estranha sensação de desforra.
Desde muito pequeno associava o passaporte a uma ideia de conquista e liberdade. Lembrava-se das dificuldades que o pai e os conterrâneos tinham de vencer para obter aquele documento que lhes permitia deslocarem-se livremente entre a sua terra natal e a França.
A concessão era arbitrária e só alguns privilegiados, amigos do padre ou do presidente da junta, e com propriedades em seu nome, o conseguiam obter.
Para a maior parte dos emigrantes foi conseguido depois da passagem a salto e de muitas horas perdidas à porta dos consulados portugueses em França.
Mas o passaporte só por si não garantia a liberdade de circulação.
Os mancebos em idade da inspecção e os homens até aos 45 anos necessitavam de um documento militar.
Para os emigrantes com passaporte, e após os 25 anos, era possível remir as obrigações militares mediante o “pagamento da tropa”, ou seja uma taxa, que lhes permitia regularizar a situação.
Ele próprio tinha vivido essa experiência. Há cinco anos atrás para conseguir o passaporte foi necessário apresentar um documento do governo francês provando dispor de uma bolsa de estudos, para conseguir a autorização militar.
Regressado da Guiné, em finais de Abril, dirigiu-se para Castro Laboreiro onde se manteve cerca de dois meses gozando umas férias tranquilas junto dos pais e nos locais aos quais se sentia fortemente ligado. Mas a vida continuava e em Julho regressou a Lisboa.
Como já estava desmobilizado, e pretendia regressar a Paris para continuar a sua vida profissional, requereu o passaporte no Governo Civil de Lisboa. 
Para grande surpresa foi-lhe recusado.
Não queria acreditar e pretendia saber a razão! Após várias insistências o funcionário foi chamar um superior hierárquico a quem explicou o absurdo da situação. Enquanto estava apurado para o serviço militar tinham-no autorizado a ir para o estrangeiro e agora, depois de ter cumprido o seu dever, inventavam uma desculpa para o obrigarem a fugir!
Ao fim de algum tempo e várias insistências tentativas conseguiu arrancar a informação de que a causa do indeferimento resultara de parecer negativo da PIDE, que era obrigatório!
Revoltado com a injustiça, um dia resolveu ir à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, pedir explicações.
O agente porteiro depois de lhe perguntar o que pretendia mirou-o de alto a baixo, foi a uma casota telefonar e mandou-o subir ao andar superior onde outro agente o encafuou numa pequena sala interior e o mandou esperar.
Ao fim de longos minutos apareceu um inspector perguntando-lhe qual a razão da vinda ali. Explicou que pretendia saber a razão da informação negativa relativamente ao seu pedido de passaporte. O Inspector olhou para ele com ar de sobranceria e perguntou-lhe:
¾É a primeira vez que vem aqui?
¾É sim.
¾Então fique a saber: aqui só vem quem nós chamamos! E foi-se embora.
Meio aparvalhado, desceu as escadas e o porteiro, com ar trocista, deu-lhe as boas tardes.
Sentou-se na esplanada da Brasileira do Chiado, completamente revoltado e perguntando a si mesmo, de que servira ter cumprido a sua palavra!
Com os seus planos de voltar à UNESCO frustrados acabou por se conformar e enfrentar a inevitabilidade de procurar trabalho em Lisboa. Uma tarde, quando passava na Rua da Junqueira, frente à sua antiga Escola, o Neto, amigo e professor auxiliar, veio ao seu encontro e efusivamente disse-lhe:
¾ Até que enfim o encontro! O Professor N. dos Santos, tem muita urgência em falar consigo Há quase duas semanas que tentava entrar em contacto consigo.
¾    Por acaso sabe qual é o assunto? ¾ perguntou.
¾ Apenas me disse que precisava de uma pessoa para seu adjunto num consórcio de empresas multinacionais e quando eu lhe referi que você estava disponível, pediu-me para o contactar, porque o conhecia como aluno, e através de uns trabalhos. Talvez fosse a pessoa indicada e segundo me disse as condições de trabalho são muito boas. É tudo quanto sei.
Agradeceu ao amigo e contactou o Professor, acabando por aceitar o convite para trabalhar com ele, em condições muito acima da média.
Decorridos alguns meses após a entrada para o grupo empresarial o Professor informou-o que devia preparar-se para deslocar-se aos Estados Unidos e a Bruxelas a fim de apoiar uma missão do Estado Português, cujos pormenores e instruções iriam ser fornecidas pelo Director do Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, dentro de breves dias.
Transmitidas a missão e a forma de actuar ficou acordada a primeira fase de intervenção, obrigando a uma deslocação aos Estados Unidos. Nessa altura virou-se para o Director e disse:
A missão parece-me aliciante, mas infelizmente não posso deslocar-me ao estrangeiro.
—  Como assim? — perguntou o embaixador responsável pelo Gabinete, com ar surpreendido.
A PIDE entendeu dar opinião negativa ao meu pedido de passaporte e por isso foi-me recusado!
Mas porquê? Tem algum problema com as autoridades? — perguntou o embaixador num tom preocupado.
— Não! A única explicação possível refere-se a um incidente ocorrido em 1966 com um agente da PIDE na Guiné.
Já agora conte lá isso, para sabermos com o que podemos contar! Exigiu o Embaixador.
E começou a narrar o episódio, acontecido há dois anos em Nova Lamego.
Como oficial de informações todas as manhãs, às 07h00, a sua primeira tarefa  era analisar as actividades operacionais e de informações ocorridas nas últimas 24 horas no Batalhão e na Zona, e elaborar o relatório diário a enviar ao Comando em Bissau, o qual retirava os aspectos considerados mais importantes, e distribuída a todas as unidades, semanalmente, uma síntese dos factos.
Esse relatório diário assentava nas informações recolhidas pelas subunidades do Batalhão no terreno, e no sistema de informações instituído.
Era prática recomendada pelo Comando Chefe de Bissau, a partilha de informação com a subdelegação da PIDE existente em Nova. Lamego, funcionando na Administração do Concelho, e apenas com um agente.
Através dos relatórios semanais do Comando Chefe constatou a existência de muitas referências e informações sobre a região Leste, onde o Batalhão actuava, como sendo originárias da PIDE, quando afinal eram de origem militar e o tal agente obtinha-as mediante o acesso ao centro nevrálgico do Comando do Batalhão, transmitindo-as como sendo resultantes do seu trabalho, influenciando a actividade do Batalhão, pois era com base em informações que o Comando sugeria ou determinava operações no terreno
Perante tal abuso, e obtido o acordo do Comandante, transmitiu ao agente que dada a situação do território, sob comando militar, e o facto de ele pertencer a uma instituição civil, não poderia ter acesso directo à referida sala, sem prejuízo de ser informado dos factos com interesse para a sua actividade. Perante a eminência de ver a sua fonte secar fez várias ameaças, mais ou menos veladas, mas de facto a situação mudou, e a contribuição do referido agente ficou reduzida ao seu trabalho próprio, quase nulo, dada a realidade existente na região.
Já neste contexto, uma manhã deparou com uma mensagem de uma das companhias informando ter capturado dois prisioneiros, identificados como estrangeiros, a serem remetidos nessa tarde para o Comando do Batalhão para interrogatório mais detalhado.
Assim aconteceu. Ao princípio da tarde e com recurso a um militar nativo, fula, como intérprete, porque dominava bem o português e a língua dos prisioneiros, concluiu-se o interrogatório.
Ainda o relatório não estava feito quando o agente da PIDE irrompeu pela sala de operações reclamando a entrega imediata dos prisioneiros por se tratar de estrangeiros, cuja competência era exclusivamente dos seus serviços.
Calmamente, o Manuel tentou explicar-lhe que pelo facto de o território estar sob domínio militar, competia a estes, em primeiro lugar, averiguar do interesse dos capturados e só depois decidir o seu destino
No caso concreto já concluíra pela entrega à entidade civil porque não apresentavam grande interesse militar. No entanto e apesar de escassos 50 metros separarem as instalações do quartel e da Administração Civil, os prisioneiros seriam entregues segundo as normas militares, ou seja com uma guia de entrega.
O Homem mandou-se ao ar dizendo nunca tal ter acontecido, passando a constituir um precedente grave de desconfiança num elemento da PIDE, ainda para mais da parte de um oficial miliciano. Nunca receberia os prisioneiros em tais condições e, assim, iria ter de se justificar perante o Comando de Bissau, que ele alertaria de imediato através do seu subdirector.
Mal o agente abandonou as instalações encarregou o sargento das informações de preencher as guias de entrega e levar os prisioneiros para o edifício da Administração, com ordens expressas de só os entregar se o agente assinasse as respectivas guias. Caso contrário trazia-os de volta.
Passados 15 minutos o referido furriel voltou com a indicação de o agente se manter intransigente e só aceitar os dois homens sem Guia.
Perante esta situação falou com o Comandante a quem explicou a sua relutância em prescindir do formalismo, porque em tempos o referido agente se gabara de ter feito desaparecer prisioneiros sem deixar rasto.
Embora criando uma situação insólita, sugeriu o envio dos prisioneiros por via aérea para Bissau à ordem do Comando Chefe, com a indicação do sucedido, ou seja a recusa do agente da PIDE em assinar a respectiva guia.
Passadas duas semanas o agente desapareceu, deixando o recado de que alguém iria pagar caro pela sua saída.
—  É só isso? perguntou o director do Gabinete em tom duvidoso.
—  É sim — garantiu.
O embaixador pegou no telefone e pediu para ficar sozinho. Passados alguns minutos veio ter com eles e disse.
Afinal também foi pedir explicações à sede da PIDE! De qualquer maneira o assunto vai ser resolvido. Dentro de alguns dias vai receber o seu passaporte.
Era a missão que o mensageiro tinha vindo cumprir!
Perante o desejado livrinho verde esboçou um sorriso, pensando na ironia da situação.
A PIDE tinha vingado o seu agente ao não permitir a concessão do passaporte: Mas a desforra tinha chegado. E veio-lhe à ideia a máxima popular de que Deus escrevia direito por linhas tortas!
 
 


publicado por crastejo às 00:00
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

A Vingança da PIDE e O Pa...

Castro Laboreiro - Desert...

O Pegureiro e o Lobo

O Pegureiro e o Lobo - Es...

O Pegureiro e o Lobo - Es...

arquivos

Setembro 2007

Maio 2006

links
participar

participe neste blog

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds