Sábado, 6 de Maio de 2006
O Pegureiro e o Lobo
O PEGUREIRO E O LOBO
Estórias de Castro Laboreiro
Por Manuel Domingues
 
O Livro, escrito por um crastejo, é editado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro e apoiado pela Câmara Municipal de Melgaço. Acompanha o trajecto de uma criança despertando para o Mundo nos meados do século XX, numa comunidade serrana multissecular. A descrição do cenário em que a criança passou a sua infância mostra o retrato de uma comunidade com forte identidade cultural assente em esquemas sociais e sistemas de valores de entreajuda que lhe permitiram sobreviver ao longo dos tempos perante todas as adversidades.
No início da década de quarenta. (do sec. XX) os castrejos viviam com muitas dificuldades, mas imbuídos de princípios forjando um carácter forte, independente e solidário....».
A sociedade crasteja desenvolveu-se com base em princípios e valores de cariz comunitário baseados nomeadamente «na partilha de equipamentos e bens comuns, como o forno, a eira, os baldios e a água, para consumo e rega, e na utilização mútua dos equipamentos individuais disponíveis, bem como na cedência dos próprios animais de trabalho.».
Ao mesmo tempo foi aperfeiçoando e consolidando as normas e princípios orientadores das relações entre vizinhos, que eram transmitidas oralmente de pais a filhos ao longo de gerações, permitindo determinar os comportamentos esperados de cada membro e resolver conflitos internos, protegendo o conjunto da intromissão de regras estranhas.
A subsistência económica assentava na exploração de um solo pobre cuja produção se reduzia a centeio e batatas, cultivados em barbeitos dispersos. Esta actividade era complementada com a criação de gando, e de rez que através da venda de crias proporcionava algum dinheiro, enquanto o leite reforçava a dieta alimentar e a lã fornecia grande parte da matéria-prima para o vestuário. 
Atendendo à escassez dos recursos gerados pela actividade agro-pastoril, competia aos homens angariar o resto do dinheiro necessário ao sustento da casa. A mulher, além da participação nas tarefas agrícolas, ao lado do marido, tratava da casa e dos animais e cuidava dos filhos cuja educação era também responsabilidade comunitária,
Durante muitos anos os crastejos partiram no final do Outono para outras regiões do Norte do País ou da vizinha Espanha, procurando amealhar algum dinheiro, donde regressavam no início da Primavera.
A situação viria a alterar-se radicalmente quando os dois conflitos responsáveis pela situação de crise, a guerra civil de Espanha e a 2ª grande guerra, terminaram. Com efeito a partir do final dos anos quarenta os crastejos iniciaram um processo de emigração maciça para França que em três décadas originou uma diminuição de 50 % da população e privou Castro Laboreiro da quase totalidade dos seus homens em idade activa.
«De agricultores livres, vivendo pobremente, passaram a maçons com bons salários, habitando nos bidonvilles, em condições sub humanas.»
Aos contingentes iniciais de chefes de família seguiram-se os filhos mais velhos e posteriormente os mais novos, obrigados a abandonarem a terra natal para continuarem os estudos noutras localidades do País. Como resultado do êxodo dos adultos as crianças viram-se privadas da convivência do pai e a sua participação na economia da casa passou a ser indispensável desde tenra idade.
Com o decorrer do tempo e a melhoria das condições de vida, os valores fundamentais que suportaram a sociedade crasteja e os princípios em que assentava a formação do carácter dos jovens caíram em desuso, fazendo ruir os seus alicerces, enquanto a aculturação generalizada das novas gerações provocava conflitos e situações de desenraizamento. A solidariedade nos momentos difíceis foi substituída pelo exacerbar do individualismo e os elementos fundamentais de uma cultura centenária votados ao ostracismo, pelo abandono das actividades a que estiveram ligados e pelo desinteresse geral.
«O êxito na luta pela melhoria das condições de vida, provocou uma situação de quase desaparecimento da cultura que impulsionou essa mesma conquista de bem-estar.»
É neste cenário que as estórias se desenvolvem e a criança se vai transformando em adulto, até chegar a altura de abandonar a terra para estudar e construir a sua própria vida noutros locais. Atenta aos perigos que se adivinhavam antes da partida lança o primeiro grito de alerta, que não encontrou eco. Iniciada a cavalgada da vida interrompeu a intimidade com a terra mãe. Quando reatou a ligação de cumplicidade encontrou as raízes que os ligavam definhadas, num ambiente de desertificação humana. Num misto de saudade e gratidão a criança, envelhecida, decide fazer um esforço derradeiro para evitar que a cultura responsável pela formação do carácter franco, lutador, independente e solidário dos crastejos seja lançada no precipício do esquecimento e na ingratidão dos homens ou «reduzida a um simples monte de vestígios exóticos para turista ver, esmagado pelos símbolos arrivistas da “cultura” trolha, e transformada numa espécie de reserva cultural índia do século XXI».
A obra é complementada com o inventário de dezenas de vocábulos e regionalismos crastejos, já muito próximos da extinção.
O Autor nasceu em 1941, em Castro Laboreiro, onde frequentou a instrução primária. Participou activamente na vida agro-pastoril, em tarefas próprias da sua idade, e manteve-se fortemente ligado á terra natal até ao final dos estudos universitários no âmbito das ciências sociais, que completou em Paris, com uma post graduação, como bolseiro do Governo Francês. Cumprido o serviço militar na Guiné, cuja experiência relatou em livro, iniciou a sua vida profissional de gestor e consultor de empresas no maior grupo económico nacional de então. Mais tarde seria docente universitário e gestor em grandes empresas e serviços públicos, e coordenador de projectos estratégicos de reestruturação empresarial no sector da cerveja, dos seguros da celulose, do transporte aéreo e da administração pública, entre outros. Foi ainda Secretário Geral do Ministério da Agricultura durante cerca de nove anos, de 1985 a 1993, sendo responsável directo pela implementação da política de Modernização, Reorganização e Informatização do Ministério, em grande parte resultante da adesão à então CEE. Participou na liderança de projectos de tratamento de informação a nível europeu e foi expert independente da OCDE, no âmbito da modernização administrativa. Algumas das experiências foram relatadas em livros e revistas da especialidade. Em 1964.
Ainda estudante, fundou a Página de Castro Laboreiro, que 40 anos após A Neve constituiu o 2º espaço jornalístico dedicado exclusivamente à cultura crasteja.
No início do século XXI reatou os contactos com a sua terra natal, constatando que a sociedade de cariz comunitário na qual despertara para o mundo, e que enformara a sua maneira de encarar a vida, se encontrava em fase de desmoronamento, devido à desertificação e ao abandono das actividades tradicionais. Inconformado com o ostracismo a que estava votada a cultura crasteja resolveu aliar-se aos focos resistentes através da narração de < <...... memórias reais ficcionadas, na primeira pessoa, dos primordiais problemas que apertaram o quotidiano da comunidade crasteja, principalmente a partir de meados do século XX, desde a emigração, o contrabando, a exploração do minério, a florestação, os estudantes … ataviado de graciosos pormenores da alma social castreja que – assevera o autor – “para a contar é preciso tê-la vivido”>>.
.


publicado por crastejo às 01:47
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

A Vingança da PIDE e O Pa...

Castro Laboreiro - Desert...

O Pegureiro e o Lobo

O Pegureiro e o Lobo - Es...

O Pegureiro e o Lobo - Es...

arquivos

Setembro 2007

Maio 2006

links
participar

participe neste blog

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds